- O que exatamente você sabe, Kyle? - ela perguntou de um modo que demandava tanto autoridade quanto suavidade.
O rapaz abaixou o rosto - aquela pergunta era muito mais complexa do que a polonesa imaginava, pois a questão era que, ao fim das contas, ele não sabia absolutamente nada.
Sabia que o pai não era irlandês, nem que trabalhara na loja que supostamente pertencia aos avôs maternos. Sabia que ele não morrera em um ataque comensal, e, principalmente, sabia que a mãe não chegou a amar o homem que dera vida ao filho dela.
A verdade é que tampouco sabia quem era a própria mãe... Cassandra O'Neil e todo o passado que ele conhecia sobre ela nunca existiram... Quem existia era Lucy Renfield e uma teia de mentiras que se tecia ao redor de Kyle desde antes de seu nascimento.
- Eu sei que ele é comensal. - o garoto disse finalmente - E que minha mãe trabalhou para ele. O resto do que ela me disse, eu não sei se posso confiar.
Frida estreitou os olhos. Era perceptível no tom de voz de Kyle o quanto ele estava ferido, magoado e confuso com a situação. Qualquer coisa que ela dissesse ou contasse sobre Ludovic era provável que o garoto rejeitasse.
Ele fora enganado pela pessoa em que mais confiava na vida. Apesar das boas intenções que Frida sabia que havia na atitude de Lucy, deveria ser um peso enorme para Kyle descobrir que tudo em sua vida era uma ilusão.
Antes de revelar qualquer detalhe mais aterrador, ela precisaria conquistar a confiança do garoto ou permitir que a própria realidade mostrasse a ele o que motivara a mãe a fazer algo tão desesperado. Era injusto, era cruel, mas Frida sabia por experiência própria que algumas vezes o sofrimento era algo inevitável.
- Sua mãe não sabe que você está aqui. - ela disse, não como uma pergunta, mas como uma afirmação quase enfática.
- Não. - Kyle disse de modo seco e direto - Eu fugi para cá.
- Ela deve estar preocupada. - Frida tentou argumentar, mas ao ver o rapazinho dando os ombros, quase em um ato de desdém é que ela percebeu que ele estava muito mais ferido do que ela supusera.
- Você pode ficar aqui, Kyle, mas com uma condição: eu vou ligar para Lucy e contar onde você está. Caso contrário, não duvide que consigo mandá-lo de volta para a Grécia. - ela disse, de modo impassível, que não permitisse argumentação.
O rapaz sentiu uma raiva crescer em seu peito, prestes a rebentar. Quem aquela mulher achava que era para obrigá-lo a fazer o que ela queria? Ele chegara tão longe em busca de respostas, não iria voltar para a Grécia, não queria voltar para lá, para todas as mentiras... Ele precisava saber! Independente do preço que precisasse pagar pela verdade.
Kyle cerrou os punhos, tentando se conter, pois sabia que, em parte, Frida não estava errada. Além disso, ele não tinha mais nenhuma outra opção. Para permanecer na Inglaterra, para descobrir o que queria, precisaria se submeter às ordens da polonesa.
- Eu quero ficar. - ele balbuciou.
Frida deu um sorriso suave, encarando o rapazinho com um pouco mais de ternura.
- Ótimo. Então temos um trato... - ela disse - Enquanto eu telefono para a sua mãe, você pode ir para a cozinha comer alguma coisa. Deve estar com fome. E, não se preocupe, você só vai conversar com Lucy quando desejar, eu não vou forçá-lo a isso, Kyle.
Ele se levantou, assentindo.
- Eu não desejo falar com ela agora. De resto, pode fazer como a senhora quiser.
Frida assentiu, observando a figura do rapaz se levantar.
- A cozinha é por aquele corredor. – ela indicou.
Foi a vez dele assentir, logo deixando a companhia dela. E enquanto alcançava o telefone, a mulher não pode deixar de se perguntar quais as conseqüências que a presença de Kyle ali trariam no futuro... para o bem ou... para o mal...
fim do arco
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