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Thursday, March 26, 2009

 

Casca vazia


Havia cheiro de chuva no ar. As nuvens juntavam-se mais além, sobre o oceano, e ele podia ouvir dali o som das ondas quebrando-se com força sobre as pedras mais abaixo do penhasco. A noite não tardaria a chegar, juntamente com os primeiros sons da tempestade.

Sentado sobre um dos monolitos maiores que dominavam aquela parte da ilha desde muito antes dos MacFusty terem chegado às Hébridas, Christopher observava o vazio diante de si. A imensidão do céu, refletida na superfície das águas, a falta de estrelas, o vento gelado que soprava... Era quase como um espelho do que lhe ia por dentro.

A besta estava caída aos seus pés, assim como o carcás de setas. Erin descansava um pouco mais atrás, pastando tranqüilamente. Apesar do dia difícil, a égua não sofrera sequer um arranhão, graças aos cuidados do seu cavaleiro. O mesmo, entretanto, não se poderia dizer dele. O sangue ainda escorria pela ferida no pescoço, ardendo com o efeito do remédio que um dos outros domadores passara para anular o veneno das garras do dragão com que tinham lutado mais cedo.

Não que ele se importasse com isso. Havia marcas brancas de feridas já cicatrizadas por toda a extensão do seu corpo. Nunca se preocupara em cuidar das feridas para que elas sumissem. Ao final das contas, como já dizia um outro domador, elas faziam "parte do currículo". Um charme adicional ao par de turmalinas que eram seus olhos, aos cabelos negros presos num rabo de cavalo junto à nuca, à franja que caía, escondendo parte do rosto... Ou, pelo menos, era isso que diziam as garotas com quem ele já saíra.

Christopher suspirou. Uma casca vazia coberta de cicatrizes. Era daquela maneira que ele se via naquele momento. Não havia nada que o prendesse àquele mundo, nenhum laço de sangue, nenhuma grande amizade, absolutamente nada com que se importar. Ainda assim, entretanto, era um sobrevivente.

Sentiu uma ardência no braço. Levantando a manga da camisa, ele observou a Marca Negra se fazer visível em sua pele, delineando-se ao mesmo tempo em que queimava, como ferro em brasa. O gado do Lorde das Trevas... O rapaz sorriu, irônico, enquanto se levantava.

- Hora de trabalhar... - ele ouviu a própria voz soando amarga, um instante antes de desaparecer do penhasco, como se jamais houvesse existido.



AMANHÃ TEM POSTAGEM NO EXPRESSO

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