- Raven, comida não dorme... não adianta cutucá-la porque ela não irá acordar.
Sorri amarelo para a tentativa de piada de Satanio. Ele prosseguiu, num tom mais sério:
-Imagino como as coisas devem estar meio complicadas para você, Moça Corvo. Eu já vi muitas coisas estranhas na minha vida, mas Raven recusando comida é o cúmulo do estranho. De verdade.
- É, Sat... – concordei, pousando o garfo no prato e relanceando pela milésima vez o olhar para a cadeira do Diretor de Hogwarts – Você não tem idéia do quanto tem sido complicado...
- Caso precise de um amigo... – ele começou, apertando de leve meu braço.
- Eu grito – completei, com um sorriso leve.
Corri os olhos pelo Salão Principal, que agora parecia uma extensão da Sala Comunal da Sonserina. Toda a festividade acolhedora dos tempos de Dumbledore cedera lugar a uma suntuosidade altiva e fria; grifinórios, corvinais e lufa-lufas demonstravam menos contentamento por estar em Hogwarts do que o costume, e apenas a mesa da Sonserina mantinha um clima de festividade, principalmente entre os alunos pertencentes a famílias ligadas ao serviço a Voldemort. Alguns chegavam mesmo a encarar as mesas das demais casas com ares superiores, risinhos de mofa, e tudo aquilo estava me cansando horrores.
Descobri Kyle, o primo grego de Meri, sentado à mesa da Lufa-Lufa ao lado de Lucien e Luke, e me surpreendi. Eu o imaginava grifinório, mas fiquei satisfeita com o resultado; seria bom para ele ter a companhia e o apoio dos rapazes em seu primeiro ano na nova escola, ainda mais com este novo... ambiente. O olhar azul de Luke encontrou o meu, e o ruivo me fez uma expressiva careta de nojo. Compreendi perfeitamente o porquê ao lembrar-me da zombaria da maior parte dos sonserinos à passagem dos lufanos pelo salão. Me doía reafirmar que boa parte de minha Casa compunha-se de rematados babacas; Salazar Slytherin merecia coisa melhor.
Voltei minha atenção para a mesa dos professores. Ali não mais se via a enormidade gentil de Hagrid; os professores Flitwick e Sprout mal disfarçavam seu descontentamento, e mesmo a professora McGonagall conduzia a seleção dos miúdos com menos entusiasmo do que nos anos anteriores. Escarrapachado em sua cadeira estava Slurgh, o Intragável, a toda hora observando os movimentos do Senhor de Meu Coração, na certa imaginando todas as lisonjas e babações com as quais o cumularia no decorrer do ano em busca de favorecimentos e facilidades. Gordo idiota.
Porém, me parecia que o Lesmão ganhara dois concorrentes em intragabilidade: ladeando Severus Snape, certamente nossos novos professores, estavam um homem e uma mulher bastante parecidos em sua feiúra e desagrado: ambos tinham ombros curvados e caídos, caras pálidas e patéticos olhinhos miúdos. Contrastando com os demais professores, sorriam com superioridade e pareciam extremamente felizes e seguros de si, trazendo-me a certeza de que me seriam necessários caldeirões de poção antiácida para poder suportar esse último ano letivo.
Meus olhos voltaram a se fixar em Severus Snape, e ele nunca me parecera tão inexpugnável como agora. Seus profundos orbes negros brilhavam, mas nada em sua figura esguia e altiva demonstrava a menor emoção por ocupar a cadeira de Diretor de Hogwarts; a indiferença com que observava o salão semelhava àquela que sempre adotara quando professor. Malgrado meu, ansiava por seu discurso de abertura e tentava imaginar o que aquele misterioso e fascinante bruxo nos diria.
A seleção terminou e a professora Minerva sentou-se. Involuntariamente, o salão quedou-se em silêncio; segundos depois, o Senhor de Meu Coração ergueu-se e abarcou o salão com seu poderoso olhar. Meu coração disparou, alucinado.
- Declaro aberto o ano letivo em Hogwarts – ele sentenciou, sua voz profunda mantendo a costumeira entonação – Alerto a todos que algumas modificações substanciais foram feitas na rotina da escola para este ano letivo, e que devem ser cumpridas à risca por todos os alunos. Espero ter sido bastante claro neste ponto.
Alguns murmúrios muito fracos vindo das outras mesas se fizeram ouvir aqui e ali, bem como sussurros de aprovação sonserinos; porém, logo cessaram. Quando o silêncio retornou, Severus prosseguiu, apontando os desagradáveis que o ladeavam e que agora sorriam de orelha a orelha:
- Apresento-lhes os novos professores de Artes das Trevas e Estudos dos Trouxas: Amycus e Alecto Carrow, que também serão responsáveis diretos pela manutenção da disciplina. Por esse motivo, deixarei a cargo deles, agora, explicar-lhes as novas regras de Hogwarts.
O tal Amycus assentiu, inflado de orgulho, e ergueu-se assim que Severus tornou a sentar-se. Depois de pigarrear e levar as mãos às costas, com uma voz especialmente irritante iniciou uma enfadonha enumeração de nãos que era, na verdade, tudo o que eu precisava para deixar minhas idéias voarem à solta na direção que mais apreciavam ultimamente: o Senhor de Meu Coração.
Mantendo minha escrita de não mais saber o que pensar a seu respeito, apanhei-me imersa em orgulho e repulsa. Severus nunca me parecera tão extraordinário como hoje, e meu espírito se agitava ao vê-lo à frente de Hogwarts quase como no mesmo dia em que Dumbledore o anunciou professor de DCAT; todavia, o preço daquela Direção embrulhava meu estômago, me fazia suar frio. E uma vez mais se travava em meu íntimo aquele embate martirizante: o Senhor de Meu Coração só dirigia Hogwarts porque Dumbledore estava morto; Potter afirmara que o assassino era Severus, mas ele era, a princípio, a única testemunha do ocorrido e o mundo inteiro sabia o quando Potter odiava Snape... Então, por Merlin, onde estaria a verdade, afinal?
Um leve cutucar no braço me despertou; Sat me apontava um pedaço de pergaminho onde escrevera: Pára o trem que eu quero descer! Esse filho de trasgo com inferus é o cara mais chato que já surgiu na face da terra!! Estou com vontade de vomitar, porque me deu saudade da Umbridge.
Assenti com uma careta, ainda que não estivesse escutando nada do que o sujeito falava; tudo o que queria era que aquele tormento acabasse e eu me visse livre para me enfiar sob minhas cobertas e tirar o cérebro do ponto morto somente na manhã seguinte. O tal Carrow ainda falou mais um bocado, o que permitiu a mim e a Sat jogarmos discretas partidas de Jogo da Bruxa Velha que foram todas vencidas pelo loiro, já que minha atenção, obviamente, estava focada em outros assuntos.
Quando finalmente o sujeito se calou e fomos liberados, ergui-me desanimada da cadeira e observei o Senhor de Meu Coração deixar o Salão Principal tão rapidamente quanto havia entrado. Segui pelos corredores das masmorras ladeada por um Satanio igualmente silencioso; a certa altura, percebi que Adhara Ivory também caminhava próxima a nós. Trocamos um rápido olhar e, por mais que ela soubesse aparentar indiferença, no fundo de seus olhos azuis meia-noite também se podia vislumbrar, ainda que com muita discrição, desagrado e inquietação bem semelhantes aos que me iam no peito.
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