Um Novo Ninho - Parte 4
Crows don't Cry
Foi com um enorme sorriso de orgulho que Raven passeou ao braço de August Sinclair pelo jardim da casa dos Goddriac e o apresentou aos amigos e conhecidos presentes no casamento de Lore e Herman. O orgulho da sonserina provinha não só do carinho e admiração que naturalmente nutria pelo tio talentoso e inteligente, como também de sua própria capacidade em ter preparado o filtro antiazar que dera a beber a August antes de saírem de Londres e que, até então, vinha funcionando muito bem, pois conseguira transformar os costumeiros desastres que atormentavam seu tio em discretos incidentes normais em festas onde comparece muita gente: um vasinho de flor que cai, um laço de fita que se desmancha, uma taça que derrama...
O sorriso de Raven diminuiu de tamanho, contudo, quando seus olhos pousaram em um indivíduo alto, de ombros largos, metido em um terno negro de bom corte e com os cabelos ruivos penteados para trás; segurava uma rabeca e conversava com um senhor que lembrava bastante Satanio. Era óbvio que Luke viria ao casamento do amigo, e por isso Raven ensaiara cuidadosamente um pedido de desculpas formal para tentar consertar o clima péssimo que ficara da última vez em que se encontraram; entretanto, ao ver o rapaz seu discurso foi por água abaixo. E, quando August Sinclair a conduziu naquela direção para cumprimentar Luke, a vontade da jovem era que um imenso buraco se abrisse no meio do jardim e a tragasse, tanta vergonha sentia.
Luke foi extremamente gentil com August, apertou-lhe a mão com firmeza e sorriu diante da estupefação do bruxo ao descobrir que ele tocava rabeca; explicou rapidamente a tradição musical de sua família pelo lado materno, de origem cigana. Para Raven, dirigiu apenas um olhar frio e um menear de cabeça à guisa de saudação. E só. Com isso, se pedir desculpas formais parecia difícil para Raven, depois desses sinais, então, tornara-se praticamente impossível.
- Titio, acho que meu pedido de desculpas vai ser inútil – ela cochichou com o tio, quando Luke se afastou para posicionar-se com os demais músicos – A pessoa de cabelos ruivos parece ter ficado mais magoada do que eu imaginava...
- Não custa nada tentar, filha – disse August, passando o braço pelos ombros da sobrinha – Tenho certeza de que você vai achar um jeito de se desculpar e, com o tempo, as coisas vão se acertar entre vocês. Hm, vamos chegar mais perto do altar? Parece que a cerimônia vai começar...
O casamento emocionou Raven, que nunca vira nada tão simples e ao mesmo tempo tão belo e significativo. Bastante diferente do casamento de seu primo Edward, cheio de pompa e circunstância, mas não por ele, coitado, mas sim para a noiva, conhecida entre os primos como Nicole, a Mala, poder aparecer, como era seu costume... O que o amor não faz com as pessoas! Sim, o que ele não faz, a ponto de permitir à sonserina devanear com um alguém muito amado, alguém cuja lembrança e um emaranhado de dúvidas e incertezas tomava-lhe muitas noites de sono naquelas férias... Alguém que ela desejava ardentemente e, ao mesmo tempo, temia rever em Hoggy... Alguém com longos cabelos negros e belas mãos... capazes, será, de matar?
A cerimônia terminou, Raven foi cumprimentar os noivos. Riu das piadas de Satanio, perguntou à Meri e a Lucien se eles seriam os próximos a se enforcar e ficou satisfeita ao ver que a amiga estava bem. Raven podia sentir as modificações que o seqüestro trouxera à ruiva, mas confortava-lhe o coração perceber que a essência da jovem bruxa não se alterara. Em verdade, era reconfortante estar ali com quase todos os seus amigos queridos e com Kyle, recém-enturmado porém muito bem aceito, lamentando-se apenas a ausência de Mina... Logo ela, que ficaria tão feliz com o casamento da Mafiosa!
- Mamma, pode ficar sossegada, viu? – disse Lore, com uma risadinha – Pedi à mamãe e à vovó para fazerem todos os quitutes em dobro, você pode comer à vontade e sem medo!
- E quem disse que eu estou pensando em comida? – devolveu Raven, avaliando gulosamente uma bandeja cheia de salgadinhos.
- Por Salazar Slytherin! Gente, se me dão licença, acabei de descobrir que preciso fazer um resgate urgente! – exclamou Satanio, risonho – Vejam, o pobre do Luke foi capturado pela minha tia-avó, que está simplesmente encantada com ele desde que o viu com aquela bendita rabeca! Não parava de comentar comigo durante o casamento: que gracinha o rapaz ruivo que está tocando a marcha nupcial!... Venha comigo, Rav, partamos em missão para salvar nosso dileto Cabeça de Fósforo!
- Hm... Acho melhor você ir sozinho, Sat... – desculpou-se Raven, enchendo a boca de salgadinho – Ahxho khe o Ukevai ficah em aça seeu fohjhunto coceh...
- Como é que é? – perguntou Herman, risonho.
- Eu acho que ela disse que o Luke vai ficar sem graça se ela for junto com o Sat – disse Meri, enquanto Raven sacudia a cabeça freneticamente em assentimento. Desconfiado, o loiro deu de ombros e partiu para salvar o amigo do mimo de sua tia-avó. E, aproveitando a deixa, Raven exclamou:
- Bem, e eu vou procurar meu tio Augie... Sabem como é, não podemos dar chance para o azar... Com licença, pessoal, já volto!
Raven encontrou August conversando animadamente com uma mulher morena, acompanhada por um homem que parecia orgulhoso dela. Ao ver a sobrinha, August chamou-a e apresentou-a a Lucy Renfield, e Raven sorriu ao conhecer a mãe de Kyle e ao sabê-la artista plástica, como seu tio Augie; então era por isso que eles estavam se dando tão bem! Ficou também satisfeita ao saber que o homem desconhecido era o Tio Jack de Herman, o dono da loja de colecionáveis que conseguira para ela o pôster do filme Razão e Sensibilidade; por conta disso, encetou com ele uma conversa divertida sobre quadrinhos e filmes, e tiveram que falar um pouco mais alto por conta do show de Morgana Bee and the Wild Pumpkins, que acabara de começar.
Um garçom passou por eles, e Raven pegou uma taça de champanhe. Jack fora chamado à conversa de Lucy e August, de forma que a jovem se sentiu liberada para passear pelo jardim. Apoiado a uma coluna, não muito longe dela, Luke observava a festa; a certa altura, seus olhos se encontraram e o ruivo desviou o olhar, cruzou os braços sobre o peito e amarrou a cara. Um sentimento de irritação invadiu então a sonserina, que, tomando todo champanhe de um gole só, dirigiu-se a passos duros na direção do ruivo, pensando em dizer-lhe meia dúzia de opiniões a respeito daquele comportamento infantil. Entretanto, assim que se postou frente a Luke, o discurso irritado se esfumaçou e tudo o que saiu foi... medesculpe.
E só.
Aquilo não estava bem. Aquilo não rendia nada, não queria dizer nada. Era preciso tentar outra abordagem.
E ela apareceu!
O tio de Lore, integrante dos Wild Pumpkins, anunciou o início de um karaokê para quem desejasse soltar a voz com a banda. Uma idéia surgiu no cérebro de Raven. O tio de Lore voltou a convocar um voluntário para subir ao palco. Outro garçom passou com outra bandeja de champanhe. Raven tomou de um gole só outra taça de coragem líquida e a idéia tornou-se uma certeza. Aproximou-se do palco, recebeu palmas e assovios, agradeceu, cochichou com a banda e, assim que os instrumentos se ajeitaram ao seu tom, a jovem lançou um olhar para Luke e atacou:
If I thought that it would change your mind
But I know that this time
I've said too much
Been too unkind
I try to laugh about it
Cover it all up with lies
I try and
Laugh about it
Hiding the tears in my eyes
'cause crows don't cry
Crows don't cry
I would break down at your feet
And beg forgiveness
Plead with you
But I know that
It's too late
And now there's nothing I can do
So I try to laugh about it
Cover it all up with lies
I try to
laugh about it
Hiding the tears in my eyes
'cause crows don't cry
I would tell you
That I’m sorry
If I thought that you would stay
But I know that it's no use
That you've already
Gone away
Misjudged your limits
Pushed you too far
Took you for granted
I thought that you needed me more
Now I would do most anything
To get you back by my side
But I just
Keep on laughing
Hiding the tears in my eyes
'cause crows don't cry
Crows don't cry
Crows don't cry…
Aplausos espocaram aqui e ali, Satanio assoviava, o tio de Lore cumprimentou Raven e até a convidou para cantar outra canção, mas ela recusou com um sorriso. O recado que precisava transmitir já fora dado, da única forma que conseguiria fazê-lo sem gaguejar ou passar ridículo.
Arriscando um olhar discreto na direção de Luke, Raven percebeu que o ruivo permanecia recostado à mesma coluna, porém já não tão emburrado quanto antes; descruzara os braços, enfiara as mãos nos bolsos da calça e, dessa vez, não virou o rosto.
Bom sinal, pensou a jovem, sorrindo.
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