Sunday, March 30, 2008

Satanio estacionou a scooter na rua quase deserta dos subúrbios de Liverpool. Desceu do veículo, tirando o capacete. Havia sido uma viagem rápida de Londres até ali, considerando a velocidade que a scooter bruxa alcançava, mas ainda assim, o rapaz se sentia cansado. Estavam sendo dias estranhos, e, mesmo ele, acostumado a lidar com tudo com pitadas de bom humor, se sentia um pouco melancólico e, especialmente, muito preocupado.

Ele dirigiu-se a passos firmes da casa. Era simples como ela havia lhe falado. Portão baixo de madeira, o jardim com algumas esparsas margaridas, no quintal dava para ver um balanço velho com duas cadeirinhas, um pouco de ferrugem e com a tinta toda descascada.

O loiro tocou a campanhia, um pouco ansioso. Ouviu passos ligeiros vindos do interior da casa, até que a porta foi aberta com um leve rangido. A moça estava parada junto ao batente, os cabelos presos em um rabo não tinham o usual tom lilás que ele se acostumara. Estavam castanho médios, provavelmente a cor natural deles. O rosto dela indicava que acabara de se levantar e estava um pouco amarrotado. Usava um robe por sobre a camisola. Ela deu um pequeno sorriso ao vê-lo.

-Meus pais estão dormindo. - ela disse, quase sussurrando - Os dois pegaram o turno da noite ontem. È melhor não fazermos barulho. Você me espera nos fundos? Nos balanços? Vou me trocar e já te encontro lá.

O rapaz assentiu, sorrindo de volta para ela. Satanio, então, contornou a casa, seguindo para o quintal. Poucos minutos depois de ele se acomodar no assento de um dos balanços, escutou a porta dos fundos se abrindo e viu Yvaine se aproximando dele. Ela trazia nas mãos duas canecas. Inclinou-se, beijando os lábios do namorado e depois se sentando ao lado dele no segundo assento do brinquedo e oferecendo uma das canecas a ele.

-Leite com chocolate. A mãe fez ontem à noite - ela disse - Você deve estar com fome, não?

-Aham. Obrigado. - ele respondeu, sorvendo um gole do líquido doce - Está uma delícia.

-Você veio de Newcastle até aqui para me ver, seu doido? Eu sei que sua scooter é rápida, mas mesmo assim, fico preocupada.

-E eu fico magoado. Achei que tinha sentido minha falta, Cabeça de Berinjela. Se bem que, agora que mudou o tom do cabelo, talvez eu deva mudar o apelido. Quem sabe, Cabeça de Inhame? - ele retrucou, lançando a ela o seu costumeiro sorriso maroto, embora Yvaine houvesse notado que, apesar disso, havia uma ligeira sombra nos olhos do sonserino.

A moça tentou sorrir de volta, embora o ânimo dela também não estivesse dos melhores nos últimos dias.

-Não venha dar uma de vítima para cima de mim, Cobra Amarela. Uma coisa não exclui a outra, eu estava com saudades, mas fico preocupada. Agora, por que meus apelidos são sempre relacionados com vegetais? Alguma obsessão que apenas Freud explica?

-Vai ver eu sou um vegetariano enrustido - Satanio respondeu, dando os ombros - Mas, respondendo sua outra pergunta, eu vim de Londres para te ver.

-Como se Londres não fosse tão longe daqui quanto Newcastle... - ela suspirou - Entretanto... eu estou feliz por você está aqui.

Ele sorriu de modo mais autêntico dessa vez, buscando a mão dela e entrelaçando nas dele. Ficaram alguns minutos em silêncio, com as mãos unidas, terminando de beber o chocolate e sentindo a suave oscilação dos balanços.

-Você está melhor? - ele perguntou, quebrando o silêncio.

-Não sei se algum dia vou me acostumar com a idéia de que minha melhor amiga era uma comensal... eu não entendendo como ela conseguiu mentir tanto para a gente por tanto tempo - Yvaine respondeu, sem esconder o ressentimento em sua voz. - Imagino como deve estar sendo difícil para os McGuire.

Satanio comprimiu a mão dela com um pouco mais de força, tentando passar alguma segurança. Queria ter ido ali trazer boas notícias e não fazer com que Yvaine se tornasse mais preocupada. Entretanto, se ela concordasse com a proposta dele, talvez a vinda dele fosse uma boa notícia afinal.

-Yvy... - ele começou, sério como raras vezes em sua vida - Eu estava em Londres porque aconteceu uma coisa... Não muito boa...Meridiana foi seqüestrada e o pai dela foi assassinado. Eu estive no funeral.

-A Meri? Como? - Yvaine perguntou, assustada.

-Era meio que um segredo da ruiva, mas ela tinha um tio comensal, acham que foi ele. Entretanto, o fato de ela ser mestiça e o pai dela trouxa, não pode ser ignorado. Apesar do Profeta Diário não estar noticiando quase nada, houve outros ataques a famílias de nascidos-trouxas nos últimos dias. Meus tios-avós ficaram sabendo por amigos no Ministério.

A moça baixou os olhos, pensativa.

-Isso quer dizer que minha família poderia estar em perigo, não é?

-Pode ser que sim, pode ser que não - o loiro respondeu - Mas a resposta afirmativa é mais provável. Tio Goody e tia Willie comentaram que as coisas estão muito piores que na primeira guerra. Foi por isso que eu vim aqui..

-Como assim? - ela o fitou com uma interrogação estampada no rosto - Não estou entendendo, Sat...

Ele colocou a caneca no chão, postando a mão agora livre no rosto dela.

-Vocês precisam sair do país. De preferência por vias trouxas, que são mais seguras no momento. Se você e seus pais já tiverem passaportes, as coisas ficam mais fáceis.

Ela meneou a cabeça, apreensiva.

-Eles não vão aceitar. Não vão simplesmente largar os empregos e caírem no mundo.

-Eu já resolvi isso. Meus tios viajaram tanto por tantos lugares quando eram mais novos que conhecem pessoas que você nem sonharia. Tanto bruxos quanto trouxas. Eles mexeram uns pauzinhos e conseguiram emprego para os dois.

-Onde? - ela perguntou, surpresa com a notícia.

-Los Angeles - ele respondeu - Assim você pode continuar estudando para ser atriz, afinal, eu quero ser marido de uma estrela famosa.

Yvaine riu, como há muito não ria.

-Pelo visto, você está querendo me dar o golpe do baú. Os seus pais resolveram te deserdar?

O rapaz arqueou a sobrancelha.

-Talvez... - mas, em seguida, o rosto dele tomou novamente uma expressão grave - Mas falando sério, Yvy, eu vim aqui tentar convencer os seus pais. Queria conhecer meus sogros de uma outra maneira, mas paciência. Vocês precisam ir embora do país...

-Eu sei... - ela balbuciou - E você? Vem com a gente?

-Não...Eu sou de família puro sangue bastante antiga, acho que não corro risco. Além disso, acho que posso ser útil por aqui.

-Desde que você não me faça nenhuma besteira e tome cuidado - Yvaine retrucou.

-Até parece que você não conhece o grande Satanio Goddriac. Seis anos aprontando em Hogwarts no currículo me deram experiência suficiente para ser considerado "incapturável".

A moça meneou a cabeça mais uma vez. Mesmo nas situações mais graves, o namorado não perdia a oportunidade de tratar tudo de um modo jocoso e brincalhão, mas ele tinha razão no que dizia. Ele era puro sangue, ele tinha experiência em aprontar e escapulir quando necessário. Ela teria que ter confiança nas habilidades dele para mantê-lo a salvo.

-Vamos - ela se levantou do balanço, puxando-o pela mão - Acho que escutei um barulho na cozinha, talvez um dos meus pais já tenha acordado.

-Espera um pouco - ele disse, puxando ela para trás, e, quando ela parou, esperando o que ele possivelmente iria dizer, Sat aproximou-se de Yvaine, dando-lhe um beijo mais longo e cheio de saudades.

-Agora sim podemos ir - ele retrucou.

Yvaine nada respondeu, apenas voltou a puxar o namorado em direção a casa. Em seu rosto havia uma mescla de alegria por ele estar ali junto dela, e de tristeza, por reconhecer que o melhor para todos, naquele momento, era ficarem separados. Pelo menos até que a guerra acabasse...

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