Tuesday, April 27, 2010

Saltos Altos- Parte 2

Horas se tinham passado desde que o outro grupo deixara a companhia deles para a missão daquela noite. Ele estava agora deitado em sua cama, os braços cruzados sob a cabeça, encarando o teto com um semblante melancólico.
Apesar de ter mantido o tom de sempre quando vira Sam mais cedo, ele não podia negar que reagira muito mais do que deveria à visão. A simples lembrança, na verdade, era o suficiente para fazer com que o sangue corresse mais rápido em suas veias.
Aquilo tudo era certamente uma ironia. Desde que ele lera os pensamentos dela, desde que ela se afastara dele...
Lusmore sentou-se na cama, cerrando ligeiramente os olhos. Aos poucos, uma incerteza ia se infiltrando em sua mente. Ele conhecia os sentimentos que estavam começando a correr em sua mente. Tinha-os experimentado uma vez. Mas, na primeira, a recíproca não fora verdadeira.
O bardo abriu ligeiramente a palma da mão, fazendo com que um pequeno halo de luz dourada surgisse sobre seus dedos. Outra pessoa tivesse visto a pequena chama dançando na palma dele, teria ficado encantada.
Ele, contudo, fez uma careta.
- Está instável. – ele observou em voz alta para si mesma.
Isso significava que não estava em pleno controle de seus sentimentos. Seu humor flutuava ao sabor de uma corrente que ele não tinha certeza se deveria seguir. De uma coisa, contudo, ele já tinha começado a ter consciência.
A afeição que tinha por Samantha Blair não era, nem de longe, fraterna. E, talvez pela primeira vez na vida, ele não sabia o que faria a seguir.

Monday, April 26, 2010

Saltos Altos- Parte 1

Enquanto se olhava no espelho, Sam se perguntava novamente por que fora escolhida para aquilo. E, principalmente, por que raios ela aceitara?

Uma pergunta para qual sabia a resposta. Ela era uma garota nova, bonita e que sabia se defender. Estava na Resistência há pouco tempo, mas levando em conta seu histórico de amizades e família, era considerada uma agente de confiança. E para o que precisava ser feito, ela era uma das poucas disponíveis e no perfil para cumprir aquela missão.

Puxou para baixo a saia preta que estava vestindo, re-arrumando mais uma vez a vestimenta que lhe foi passada. Mini-saia preta, meia-calça preta e blusa branca com gravatinha... Não entendia como poderia ser tudo tão fechado acima da cintura e abaixo ser aquilo. E como poderia andar com aquele salto alto finíssimo?

- Pois é, Dona Samantha... Hoje você vai ser tornar uma personagem de filme, uma espiã... Ficou até ruiva para tal... - Ela falou mais para se acalmar.

Apesar de ter aceitado a missão, no fundo estava nervosa com o que lhe fora passado. Godfrey a chamara em particular para explicar os detalhes, pois não seria algo simples. Ela teria que se disfarçar no meio das garçonetes de um bar onde um bruxo do alto-escalão do Ministério freqüentava e precisaria trocar a chave que ele carregava sem que ele percebesse.

Quando ouviu isso ela achou que não teria tantos problemas, até que ele mostrou uma foto do local e o uniforme usado pelas garçonetes. Na mesma hora Sam sentiu seu rosto arder ao se imaginar usando algo tão provocativo.

“Quem pensa em colocar um zíper passando por uma saia desse tamanho?”, ela pensou.

Godfrey perguntou se Sam conseguiria, se estava preparada para fazer aquilo. Explicou também algo que somente ela saberia, pois Michael e Troy só iriam estar por perto para cobertura, se precisasse. Eles não saberiam todos os detalhes. Ela estaria trocando a chave para uma caixa que a Resistência iria roubar na mesma noite. Já tinham descoberto quais feitiços protegiam os documentos e quais contra-azarações utilizar. Faltava a chave que abriria a caixa, pois tinham receio que se forçassem a abertura, poderiam perder todas as informações. Exatamente por isso as missões aconteceriam simultaneamente.

Ao saber que aqueles documentos eram para ajudar a descobrir sobre as azarações que estavam sendo criadas pelo Ministério, como a que atingira Sam nas costas, ela aceitou. Godfrey entregou a ela as roupas e alguns objetos que a ajudariam, para que se preparasse com antecedência.

Há uma semana ela treinava o uso daquele anel discreto que seria o principal para ter uma missão bem sucedida.

- Estou pronta e vou conseguir! - Sam falou com firmeza olhando mais uma vez seu reflexo no espelho.

Sem batidas para avisar, a porta do quarto de Sam se abriu mostrando um rapaz loiro que entrava sem se anunciar.

- Vamos Sam, está na... MINHA MÃE DO CÉU!! - Michael berrou.

A resposta de todos da casa foi imediata, Herman, Isaac, e Troy aparataram no quarto de Sam com as varinhas nas mãos. Lusmore chegou por último, correndo pelas escadas – ele, afinal, não aparatava.

Herman foi o primeiro a abaixar a varinha ao perceber que o grito de Michael se devia mais a um ataque de elogios que a um ataque comensal. O rapaz piscou algumas vezes antes de efetivamente reconhecer a "cunhada" por baixo daquela roupa excessivamente provocante na opinião dele.

Sam estava de fato realmente muito bonita, contudo, sabendo que a célula deles sairia em missão naquela noite, preocupava ao Mensageiro que tipo de ambiente a moça teria que freqüentar com aquele indumentária, que tipo de pessoa estaria à espera dela. Herman sabia que Samantha sabia tomar conta de si, mas não conseguia deixar de se preocupar, afinal, mais que uma amiga, ela se tornara praticamente "família".

Troy abriu e fechou a boca algumas vezes pensando se deveria falar algo, sair dali correndo ou... Na verdade o rapaz não sabia exatamente o que fazer, aquilo era totalmente inusitado. Desde que entrara naquela casa vira Sam somente como uma menina nova que deveria estar na escola com suas amigas. Ele parou para se perguntar se tinha algo a mais na missão que não sabia.

- Hamina hamina hamina...

Michael repetiu várias vezes enquanto andava até Sam que não sabia onde se enfiar naquele momento. Os olhos do loiro pareciam travados enquanto ele se aproximava da outra.

- Eu já descobri sua missão, Sam. - Lusmore observou com a face risonha - Você vai matar do coração um grupo de comensais. Uma idéia muito inteligente do tio August. Enfartar as bailarinas.

Isaac, que até então permanecera calado, de braços, cruzados, voltou-se para o bardo, franzindo a testa.

- Bailarinas?

- É, bailarinas da morte, estrelando O Fantasma da Ópera. Aquelas máscaras...

Sam olhou para os garotos em volta e sentiu seu rosto arder fortemente, ela estava muito, muito vermelha. Só com ela poderia acontecer algo assim. A garota pretendia sair com seu sobretudo e ser o mais discreta possível.

Sem saber o que fazer, Sam viu Michael andando de braços abertos para abraçá-la. Como reflexo ela estendeu o seu e o parou.

- Mais um passo e você não conseguirá sair de casa hoje.

Em resposta ele pegou a mão estendida e se ajoelhou diante da, agora, ruiva. Com o rosto sério ele virou para a garota que olhava aquela cena espantada.

- Samantha Blair, você aceita se casar comigo?

- Grande começo para uma difícil missão... - Sam puxou a mão com força. - Parem com isso e saiam daqui!

- Mas... mas... - o loiro falou com os olhos tristes. - E o meu coração?

- Vai sobreviver, tome um porre mais tarde. - Ela falou séria. - Se quiser, tomamos juntos para esquecer isso.

Sam pegou seu sobretudo e vestiu sem olhar diretamente para nenhum deles. Se segurava, mas não tinha como esconder o quão envergonhada estava.

- Está bem a missão primeiro, mas depois você não me escapa. - O loiro falou sorrindo marotamente para a garota.